Família, Indivíduo

A Empresa Familiar e os Mecanismos de Defesa do Ego

29 de junho de 2017

A empresa familiar se configura basicamente como um espaço de aglomeração de indivíduos que por meios de funções e processos, interagem em busca de um ideal. Essas interações que ocorrem no seio daempresa, produzem vários fenômenos psicológicos, que vão definindo olhares e posicionamentos individuais ou grupais. Cada indivíduo em suas especificidades, apresenta sua maneira de agir e de ser, mediante às relações que despontam como desafio de socialização no campo em que trabalha. Partindo disso, a psicologia se nos apresenta os mecanismos de defesa do ego como forças atuantes e determinantes nos espaços em que esse indivíduo é chamado a conviver.

(Freud 1894) em “As neuropsicoses de defesa” introduziu o termo defesa, no sentido de defesa contra uma representação incompatível, ou seja, algo que o indivíduo se opunha por não saber lidar com tal conteúdo, no campo interior. Citando alguns mecanismos podemos perceber que eles agem constantemente na vida social, em relações diversas. Sendo assim, estamos sempre procurando um lugar que nos sintamos “seguros” dentro daquilo que criamos como espaço confortável, no tocante ao lidar com o outro.

Anna Freud em "O Ego e os Mecanismos de Defesa" (1946) estabelece que o maior temor do ego é se relacionar com suas funções básicas que ela denomina Id, assim como Freud. Para manter o grau de organização atingido, o ego procura proteger-se da invasão das demandas instintivas/pulsionais, provenientes do id, e do retorno dos conteúdos reprimidos.

Compreendemos então, que tensões diversas cada indivíduo traz em si, numa busca inconsciente de manter-se bem e estável, dentro daquilo que estabelece como possível sustentar. Quando a autora fala das demandas as quais o ego teme ser tomado por elas, nada mais são do que, aquilo que está fora do seu controle de administrar.

Notamos que em nossas atuações com o Instituto Empresariar nas empresas familiares, alguns desses mecanismos de defesa surgem delimitando comportamentos que afetam as relações e o desempenho da família, da empresa e dos sócios. Citaremos alguns para que reflitamos sobre a influência destes em nosso campo de vivências.

O primeiro mecanismo é a formação reativa, onde mostra que criamos uma fixação de uma ideia, afeto ou desejo na consciência, opostos ao impulso inconsciente temido. Muitas vezes no espaço empresarial queremos manter posicionamentos de forma insistente, quando isso nada mais é do que uma forma de negar o que tememos dizer. Isso além de levar o ser a uma insatisfação pelo não dito, compromete uma problematização daquilo que o incomoda dentro da empresa.

A projeção é um dos mais comuns mecanismos de defesa que ressalta a necessidade de projetar no outro, aquilo que não queremos enxergar em nós. Esse mecanismo é responsável por diversos conflitos numa empresa, quando alguns não querem dar conta de que os problemas são seus e não dos outros, levando a conflitos que acabam virando confronto.

A racionalização é outro mecanismo que nos leva a fugir daquilo que temos dificuldade de assumir para o outro, criando algo em forma de desculpas, para justificar ou mascarar o erro. Alguém que não sabe lidar com o olhar do outro sobre seus erros, tenta criar situações, histórias e explicações diversas, tão somente para não se colocar como o errado na questão. No espaço da empresa, tal postura evita que se possa ajustar correções, fazer reparações através de diálogos e discussões reparadoras.

A negação como mecanismo de defesa, vem com a recusa consciente para perceber fatos perturbadores, retirando do indivíduo não só a percepção necessária para lidar com os desafios externos, mas também, a capacidade de valer-se de estratégias de sobrevivência adequadas. Nesse caso alguém que na empresa aplica esse mecanismo, não está envolvida nos processos coletivos de forma progressiva, pois nega fazer enfrentamentos, e ignora tudo, numa indiferença que anula qualquer processo onde ele está sendo chamado a produzir e se implicar.

Já o deslocamento se torna numa empresa familiar, um dosgrandes vilões que perturba o funcionamento dessas. Quando o ser desloca seus problemas que tem origem em outros espaços, para o espaço da empresa. Deslocam conflitos, chateações, emoções desordenadas,direcionadas para os que não estão relacionados aos seus problemas. Não conseguem separar seus dramas familiares, problemas criados em outros locais fora da empresa, com outras pessoas. No trabalho passam a lançar para os colegas de trabalho suas frustrações como forma de se ver livre de tais demandas.

Por fim citamos em meio a tantas mais um mecanismo de defesa do ego que é a Introjeção que está estreitamente relacionada com a identificação, visa resolver alguma dificuldade emocional do indivíduo, ao tomar para a própria personalidade certas características de outras pessoas. Quantos indivíduos por não terem uma identidade construída, se modelam em uma figura que escolhe para imitar? Deixa de ser quem se é, para imitar comportamentos trejeitos e maneiras de alguém que idealiza ser seu modelo de pessoa.

Aqui não estão elencados todos os mecanismos de fuga do ego, mas citamos alguns que basicamente fazem parte das relações empresariais. Para que se dê o desenvolvimento de todos os processos é preciso a compreensão da interação do indivíduo com os negócios, bem como o funcionamento da família. É forçoso que entendamos a necessidade de atuações psicológicas no campo da empresa familiar, para que se tenha um olhar sobre o ser que observa e o ser observado, criando assim, relações saudáveis que favoreçam o todo chamado empresa familiar.

 

Vanuza Ferraz, Pedagoga, Psicóloga Especialista em metodologias para o desenvolvimento comportamental de empresários, executivos e sucessores de empresas familiares do Instituto Empresariar, terapeuta de casais e famílias. Email: vanuza@institutoempresariar.com.br Tel: 85- 3246.09 78.

 

REFERÊNCIAS:

FREUD, S. (1893 -1895). Estudos sobre a histeria. In: FREUD, S. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud VolII. Rio de Janeiro: Imago, 2006a.

FREUD, S. (1900). A interpretação dos sonhos (II). In: FREUD, S. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud Vol V. Rio de Janeiro: Imago, 2006b.

FREUD, S. (1912). A dinâmica da transferência. In: FREUD, S. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud Vol XII. Rio de Janeiro: Imago, 2006c.

FREUD, S. (1915). Repressão. In: FREUD, S. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud Vol XIV. Rio de Janeiro: Imago, 2006d

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